Teia

•outubro 21, 2010 • Deixe um comentário

 

 

gravo tudo

que pelos meus olhos passa

o vôo do condor

uma leve cachoeira

ou um andar descompassado

 

registro tudo

que meu coração sente

o eco que do escuro pulsa

o choro de um animal abandonado

a baderna de um sítio desconhecido

 

olho tudo

do que meus sentimentos transbordam

o que tinha acertado com aquela moça

a lista de filmes difícies

o regresso de uma lembrança infinda

 

lembro tudo

do que a minha história esquece

o primeiro banho no límpido lago

uma bicicleta incômoda e sem freios

o bilhete que um dia rasguei

 

penso tudo

que a adolescência revira e refuga

um lenço esmaecido pela chuva temporã

o pulso do vigia com a arma vazia

 

estico tudo

do que o caminho apaga

o fogo de retorcidas flôres mortas

o alarido de um carro abarrotado de vultos

 

prendo tudo

que o vento e seus escravos alardeiam

a vizinha que corre louca pelo matagal

a leitura de um versículo de um monólogo

 

chamo tudo

que os peixes e seus anzóis represam

a dúvida de um cavalo ensimesmado com seu medo

a radiola que destampa músicas esquecidas

 

findo

ao redor de fitas e fotos perdidas

quando a semente brota ao sul do horto

com as vozes que escutei e somem descarriladamente.

 

Cgurgel

Sombra

•outubro 17, 2010 • Deixe um comentário

a sombra

que agora me chama

é tão parecida

com a rua

onde morei

onde passeavam

cigarros

vultos

badernas

e vazios

a sombra

sempre me chama

sempre me quer

por perto

ela se sente

solitária

e boquiaberta

assim

no meio da noite

a sombra

e eu

caminhamos apressadamente

por jardins

vielas

esquinas

entre a sombra

e eu

o ar da desgraça

e da desunião humana

me retiro da rua

e me recolho ao meu canto

hoje

pensei

mais uma noite à êsmo

só mesmo uma sombra

e suas dificuldades

de revelação

para me fazer

um homem

solitário

e boquiaberto.

Cgurgel

Diáspora

•outubro 17, 2010 • Deixe um comentário

quisera um dia

caminhar pela estrada

e nunca mais voltar

pular

por sobre nuvens

faróis

poeira

passagens

devorar milhas

de árvores

e fogueiras

como caminhante

que fala com o tempo

e não retorna

quisera

um dia

ser um viajante

que deflora a lua

e sabe que nunca

mais

retornará para seus rios

e floras

quisera ser

um desbravador

de mapas

planícies

e esconderijos

como um

falcão que nem presta

roendo ruinas de setas

quisera

nunca parar de me distanciar

de pastos e cercas

pelo meio da estrada

como um farejador

sísmico binóculo

lente

ambulante floresta

quisera

sim

assim

sonhar

por entre míticas pérolas

pedras

de um terra

que virá.

Cgurgel

Pássaros

•outubro 17, 2010 • Deixe um comentário

 

 

pássaros voam

sobrevoam

se lançam

 

dormem ao relento

por sobre espingardas

parecem lentos

 

pássaros

não vivem

eles sonham

e se encantam

 

apodrecem por sobre uvas

e caem

abatidos

pelas ruas e chuvas

 

pássaros

são como uma nobreza

regam sorrisos e abraços

distribuem alegria e tristeza

 

pássaros são como filmes

inesquecíveis

violentos, dramáticos

jamais cômicos

 

pássaros são tão febris

crianças tão infantis

 

pássaros

são como o céu

enormes

infinitos

e demiurgos

 

assim

como o vento

que sacode asas

e some.

 

Cgurgel

Procurar por você

•outubro 17, 2010 • Deixe um comentário

 

 

já é meia-noite

e já não sei mais

 

ontem

no frio da noite

procurei o que me fez desistir

 

e mesmo

que nada mude

 

eu já não encontro mais respostas

para o que me fez partir

 

e assim

como a noite

que nunca dorme

 

eu já não consigo

esconder todo o mistério

 

do que me fez

procurar por você.

 

Cgurgel

 

Assim

•outubro 17, 2010 • Deixe um comentário

 

 

assim são todas as orquídeas

assim são todas as mobílias

assim são todos os banheiros

assim são todas as ruas

assim são todos os velhos

assim são todos os recados

assim são todos os ventos

assim são todos os sonhos

assim são todos os pássaros

assim são todos os pincéis

assim são todos os bares

assim são todas as escadas

assim são todos os cegos

assim são todos os templos

assim são todos os olhos

assim são todas as doenças

asasim são todos os têrços

assim são todas as peles

assim são todas as imagens

assim são todos os medos

assim são todos os segredos

assim são todos os orvalhos

assim são todos os bichos

assim são todas as sombras

assim são todos os nomes

assim são todos os odores

assim são todos os loucos

assim são todos os vazios

assim são todas as madames

assim são todas as mãos

assim são todos os frutos

assim são todas vítimas

assim são todos os silêncios.

 

Cgurgel

 

 

Borralho

•outubro 16, 2010 • Deixe um comentário

 

 

não sei o que é

Deus

ele baila por sobre a sobra da sombra humana

que partiu

 

entre o escuro

que a face fragmentada das pessoas

frui

 

pois

a fluidez de uma farsa

passa pelo abismo

de uma ponte que rui

 

como fragmento

de um estranho espelho da alma

que se esborracha na plenitude

de uma planície vã

 

chama

lufada de uma barbárie criatura

assim se fez

o despertar de uma nova raça

 

simplesmente

como arrôto

de um novo século

 

flechas

são como tribos indígenas extintas

 

tochas

são como espécimes ocidentais

que arquejam

 

e baloufos ecos

são como tissagens

de uma raça

que rasteja e reza

 

e que

por tão pouco expira

como um suspiro

de uma velha cesta

que dedilha

um arco suicida

e inesquecível

 

tudo tão

higienicamente desferrolhado

e revestido de um véu que varre

 

e o olho

que desperta

uma paixão por sobre o vagão do trem

recolhe o pó que dos corpos espirra

 

de um sopro

que cala bichos

e desperta alaúdes.

 

Cgurgel